Ya, foram vinte e tal anos de
espera. Tipo, nem era nascido. Conheci o Loveless, lançado em 1991, quase
vinte anos depois dele ter conhecido o paladar da luz do dia. Só depois disso,
comecei a checkar o Isn’t
Anything, que ainda considero ser superior ao Loveless. Não é mentira
nenhuma dizer-se que os My Bloody Valentine conferiram uma
nova concepção de ruído ao panorama musical da altura em que lançaram os seus
primeiros discos: primeiro prometeram com Isn’t Antything, depois
debitaram-nos toda a sua retórica com Loveless. E boom, assistíamos àquele que é o principal marco da história do shoegaze – esse estilo musical que, ao
vivo, parece ser mais uma cena de sapateado que outra coisa, mas que, ao mesmo,
tempo, é capaz de nos violar os ouvidos de uma forma simplesmente demolidora. E
não, nunca fui a nenhum concerto de
shoegaze – mas ya, vou ao Optimus Primavera Sound (vê-los).
Um novo disco era prometido por Kevin Shields, o líder puramente
perfeccionista da banda, há mais de dúzia de anos, mas lol, o gajo andou-nos a trollar durante anos a fio. E só agora,
em 2013, passadas mais de duas décadas dos My Bloody Valentine terem dado sinais
de vida, é que os irlandeses nos fizeram chegar um novo disco. Intitulado m b v,
o disco foi parido há algumas semanas atrás e, desde logo, o sonho de qualquer
melómano que se preze estava avivado: depois de tanto tempo ligados às
máquinas, os My Bloody Valentine davam, finalmente, sinais que estavam
vivos.
Ouvi este disco na noite em que
foi lançado e desde que o ouvi que a minha opinião acerca dele se manteve:
valeu a pena a espera de mais de vinte anos. Pode não ser exímio, existem
falhas (já lá vamos), mas os My Bloody Valentine vieram cimentar,
ainda mais, a sua posição cimeira na hierarquia das bandas que mais deram à
música: o ruído ganhou um novo conceito, as guitarras mutaram-se e
embalsamaram-se em distorção e as vozes abafadas sempre foram regaladas para
segundo, terceiro ou quarto plano. Passados vinte anos, o legado continua. A peculiaridade
dos MBV
conservou-se.
Tudo começa com She Founds Now, que parece ter vindo directamente de Loveless: a voz extremamente abafada e as muralhas de distorção que imergem das guitarras e se alojam nos nossos ouvidos mescladas com o reverb que por lá habita dão-nos o presságio de que estamos a ouvir mesmo o disco dos My Bloody Valentine. Only Tomorrow explode em texturas noise e é a música que mais consegue prender-nos à primeira audição – é impossível sair incólume daquele bombardeamento ininterrupto de reverb. Por analogia, pode considerar-se esta a Only Shallow, de Loveless. Depois disso, Who Sees You, que também se revela um dos maiores malhões do disco, e que também brota a distorção por tudo quanto é canto.
A partir da quarta música do
disco, os mundos sonoros explorados pela banda sofrem uma alteração radical: as
seguintes três faixas parecem cair ali de para-quedas e retiram a pujança e a
intensidade que m b v estava a ter: Is
This And Yes é melódica e traz-nos a voz de Bilinda para nos aclimar. If
I Am também peca por ser pouco intensa, e New You é a música mais desinspirada do disco. O segundo trio de
canções deste m b v exsurge-se como pouco enérgico e cria uma desconexão
atípica, e como nunca se tinha visto num registo dos My Bloody Valentine –
estão a ver a Touched, do Loveless
(que lá acaba por funcionar bem, dado a sua curta duração)? É como se
fosse isso, mas com um prolongamento de mais de dez minutos. Um interlúdio não
pode ser tão longo, e a cabeça perfeccionista e que dá cor aos MBV
de Kevin Shields funcionou mal aqui.
Mas siga.
A partir daí, a banda descinge-se
sonoramente uma vez mais nas restantes três músicas que compõem m b v:
albergam consigo as influências mais electrónicas que Shields tanto falou. O trio revela-se hipnótico e electrizante, mas
é nas últimas duas faixas que m b v ganha novos contornos: há quem
fale em “alguém me ajude, tenho um Airbus A380 no meio
do meu quarto” (João Morais), referindo-se a Wonder 2. Há quem fale em hélice quando ouve a atordoante Nothing Is. Mas ya, acho que não posso
dizer outra coisa que não “é do caralho”. O disco desenlace-se de uma maneira
que se revela irremediavelmente robusta para qualquer ouvido, e traz-nos uns
novos My Bloody Valentine que não são identificáveis nem em Loveless,
nem em Isn’t Anything nem, muito
menos, em qualquer um dos seus ep’s.
Em suma, m b v
não é um disco perfeito – está, na verdade, longe de o ser. Está, também, na
verdade, longe de ser o melhor disco que os My Bloody Valentine nos
ofereceram. Não suplanta o luzir que Loveless representa ainda hoje,
passados vinte e dois anos do seu lançamento, por muitas almas deste mundo.
Também não supera a vivacidade, coesão e brilhantismo de Isn’t Anything. Nem o
podia ter superado. Não com aquele segundo trio de canções que apenas deveriam servir
para interligar a exploração de dois universos distintos: o universo Loveless
e o universo além dele, criado pela futuro, pela engenharia do som e
pelo pesar electrónico que pairou na cabeça do perfeccionista Shields durante estes longos anos.
Porém, a certeza de que os My Bloody Valentine são uma das
bandas mais importantes da história da música cravou-se ainda mais nas nossas
cabeças. Certo, venha o próximo. E se for preciso esperar vinte anos para que
haja um próximo? Esperemos. Já vimos que vale a pena.
Classificação final: 8.2/10
Classificação final: 8.2/10
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