2.18.2013

My Bloody Valentine - m b v



Ya, foram vinte e tal anos de espera. Tipo, nem era nascido. Conheci o Loveless, lançado em 1991, quase vinte anos depois dele ter conhecido o paladar da luz do dia. Só depois disso, comecei a checkar o Isn’t Anything, que ainda considero ser superior ao Loveless. Não é mentira nenhuma dizer-se que os My Bloody Valentine conferiram uma nova concepção de ruído ao panorama musical da altura em que lançaram os seus primeiros discos: primeiro prometeram com Isn’t Antything, depois debitaram-nos toda a sua retórica com Loveless. E boom, assistíamos àquele que é o principal marco da história do shoegaze – esse estilo musical que, ao vivo, parece ser mais uma cena de sapateado que outra coisa, mas que, ao mesmo, tempo, é capaz de nos violar os ouvidos de uma forma simplesmente demolidora. E não, nunca fui a nenhum concerto de shoegaze – mas ya, vou ao Optimus Primavera Sound (vê-los).

Um novo disco era prometido por Kevin Shields, o líder puramente perfeccionista da banda, há mais de dúzia de anos, mas lol, o gajo andou-nos a trollar durante anos a fio. E só agora, em 2013, passadas mais de duas décadas dos My Bloody Valentine terem dado sinais de vida, é que os irlandeses nos fizeram chegar um novo disco. Intitulado m b v, o disco foi parido há algumas semanas atrás e, desde logo, o sonho de qualquer melómano que se preze estava avivado: depois de tanto tempo ligados às máquinas, os My Bloody Valentine davam, finalmente, sinais que estavam vivos.

Ouvi este disco na noite em que foi lançado e desde que o ouvi que a minha opinião acerca dele se manteve: valeu a pena a espera de mais de vinte anos. Pode não ser exímio, existem falhas (já lá vamos), mas os My Bloody Valentine vieram cimentar, ainda mais, a sua posição cimeira na hierarquia das bandas que mais deram à música: o ruído ganhou um novo conceito, as guitarras mutaram-se e embalsamaram-se em distorção e as vozes abafadas sempre foram regaladas para segundo, terceiro ou quarto plano. Passados vinte anos, o legado continua. A peculiaridade dos MBV conservou-se.


Tudo começa com She Founds Now, que parece ter vindo directamente de Loveless: a voz extremamente abafada e as muralhas de distorção que imergem das guitarras e se alojam nos nossos ouvidos mescladas com o reverb que por lá habita dão-nos o presságio de que estamos a ouvir mesmo o disco dos My Bloody Valentine. Only Tomorrow explode em texturas noise e é a música que mais consegue prender-nos à primeira audição – é impossível sair incólume daquele bombardeamento ininterrupto de reverb. Por analogia, pode considerar-se esta a Only Shallow, de Loveless. Depois disso, Who Sees You, que também se revela um dos maiores malhões do disco, e que também brota a distorção por tudo quanto é canto.

A partir da quarta música do disco, os mundos sonoros explorados pela banda sofrem uma alteração radical: as seguintes três faixas parecem cair ali de para-quedas e retiram a pujança e a intensidade que m b v estava a ter: Is This And Yes é melódica e traz-nos a voz de Bilinda para nos aclimar. If I Am também peca por ser pouco intensa, e New You é a música mais desinspirada do disco. O segundo trio de canções deste m b v exsurge-se como pouco enérgico e cria uma desconexão atípica, e como nunca se tinha visto num registo dos My Bloody Valentine – estão a ver a Touched, do Loveless (que lá acaba por funcionar bem, dado a sua curta duração)? É como se fosse isso, mas com um prolongamento de mais de dez minutos. Um interlúdio não pode ser tão longo, e a cabeça perfeccionista e que dá cor aos MBV de Kevin Shields funcionou mal aqui. Mas siga.

A partir daí, a banda descinge-se sonoramente uma vez mais nas restantes três músicas que compõem m b v: albergam consigo as influências mais electrónicas que Shields tanto falou. O trio revela-se hipnótico e electrizante, mas é nas últimas duas faixas que m b v ganha novos contornos: há quem fale em “alguém me ajude, tenho um Airbus A380 no meio do meu quarto” (João Morais), referindo-se a Wonder 2. Há quem fale em hélice quando ouve a atordoante Nothing Is. Mas ya, acho que não posso dizer outra coisa que não “é do caralho”. O disco desenlace-se de uma maneira que se revela irremediavelmente robusta para qualquer ouvido, e traz-nos uns novos My Bloody Valentine que não são identificáveis nem em Loveless, nem em Isn’t Anything nem, muito menos, em qualquer um dos seus ep’s.

Em suma, m b v não é um disco perfeito – está, na verdade, longe de o ser. Está, também, na verdade, longe de ser o melhor disco que os My Bloody Valentine nos ofereceram. Não suplanta o luzir que Loveless representa ainda hoje, passados vinte e dois anos do seu lançamento, por muitas almas deste mundo. Também não supera a vivacidade, coesão e brilhantismo de Isn’t Anything. Nem o podia ter superado. Não com aquele segundo trio de canções que apenas deveriam servir para interligar a exploração de dois universos distintos: o universo Loveless e o universo além dele, criado pela futuro, pela engenharia do som e pelo pesar electrónico que pairou na cabeça do perfeccionista Shields durante estes longos anos. Porém, a certeza de que os My Bloody Valentine são uma das bandas mais importantes da história da música cravou-se ainda mais nas nossas cabeças. Certo, venha o próximo. E se for preciso esperar vinte anos para que haja um próximo? Esperemos. Já vimos que vale a pena.

Classificação final: 8.2/10 

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